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À PROCURA DE ERIC

Título original: Looking for Eric

Duração: 116 min

Diretor: Ken Loach

Elenco:
Steve Evets (Eric Bishop)
Eric Cantona (Eric)
Stephanie Bishop (Lily)
Lucy Jo-Hudson (Sam)
Gerard Kearns (Ryan)
Stefan Gumbs (Jess)
John Henshaw (Meatballs)

Não foi um jogador comum

Postado em 19/11/2009 às 18:35 por Felipe dos Santos Souza


"À procura de Eric"

Ele veio a Manchester no início de abril, em 2008. Ou melhor seria: ele voltou, pois já conhecia a cidade. Como a palma de sua mão. Mas não seria para jogar vestindo a camisa 7 do Manchester United, como fez, de 1992 a 1998. Seria para começar os trabalhos em um filme, em que atuou e co-produziu. Mais uma experiência dele no cinema.

Junto do diretor desse filme, ele foi a Old Trafford. Era um jogo importante, a partida de volta das quartas-de-final da Liga dos Campeões 2007/08, contra a Roma. Os Red Devils ganharam por 1 a 0, e foram às semifinais daquele torneio, que venceriam pouco mais de um mês depois. Mas, talvez, a alegria dos torcedores não tenha sido tão grande quanto a de saber que ele estava lá. Ele, para quem ainda cantavam, dez anos depois de sua aposentadoria.

Ele é Eric Daniël Pierre Cantona. E o filme que ele começava a fazer já está concluído, chama-se "À Procura de Eric", estreou na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e entrou no circuito comercial a partir do último dia 6 de novembro. E sua intenção, declarada pelo próprio Cantona, foi bem sucedida: a de mostrar como sua relação com os torcedores do United ainda é especial.

O mais novo amigo a ajudar

Após filmes pesados (com destaque para "Ventos da Liberdade", vencedor da Palma de Ouro de Cannes, em 2006), o diretor inglês Ken Loach tinha em mente fazer algo um pouco mais leve em seu próximo trabalho. Mas o começo de "À Procura de Eric" dá a impressão de que não será uma história de muitas alegrias.

Eric Bishop (Steve Evets) é um carteiro que tem a vida totalmente abalada e desorganizada. Eric sofre, principalmente, com as lembranças tortuosas do fim repentino de seu casamento com Lily Devine (Stephanie Bishop), causado por ataques de pânico. Sua casa é uma desordem constante; seus enteados Ryan (Gerard Kearns) e Jess (Stefan Gumbs) de um segundo casamento, não o ouvem e aproveitam suas fraquezas para realizarem todas as vontades próprias; e sua filha com Lily, Sam (Lucy Jo-Hudson), às voltas com a conclusão da faculdade, reclama da falta de apoio de Eric com o neto recém-nascido.

Em suma, Eric Bishop é uma pessoa absolutamente triste. Os amigos de trabalho - destaque para o desajeitado e solícito Meatballs (John Hensham) - tentam ajudá-lo a recuperar-se dos problemas e a reconstruir a vida, mas o carteiro não consegue deixar de se lembrar das últimas vezes em que realmente soube o que era felicidade. Vezes que são exemplificadas num pôster gigante de Cantona, em seu quarto. A certa altura, sentado na cama, Eric olha para a foto e pergunta ao homônimo famoso: “Qual a última vez em que você foi feliz, Eric?”

Voltam à mente de Bishop lembranças dos vários gols e passes que fizeram do jogador francês uma espécie de símbolo da transformação por que passou o Manchester United: de clube citadino, numa realidade municipal, ao poderoso ícone capaz de atrair torcedores ingleses – e, principalmente, não-ingleses. Aliás, tal mudança é exemplificada numa ótima cena, que confronta torcedores do United a um, que finge ser adepto do United of Manchester, clube formado por fãs que não se conformaram com a venda do clube a Malcolm Glazer. Sem conseguir disfarçar, no entanto, o forte sentimento pelos Red Devils.

Uma das chaves para isso foi o comportamento de Cantona. Primeiramente, o atacante nascido em Marselha sempre foi irascível, desde os tempos de Olympique: problemas com companheiros de clube, com árbitros, jogadas violentas, tudo isso já era parte integrante das maneiras de Cantona. O que uniu-se à perfeição com uma torcida que ainda mantinha certo caráter provincial, como a dos Red Devils.

Exemplo claro de como o francês foi adotado como “um deles” é mostrado no filme: enquanto Bishop entregava cartas num bloco de apartamentos, ambos pararam e lembraram da mais famosa confusão de Eric: o episódio contra o Crystal Palace, pelo Campeonato Inglês 1994/95, quando, cansado de ouvir as ofensas do torcedor Matthew Simmons, Cantona foi às arquibancadas e agrediu-o. Bishop perdoa o ídolo com um “aquele idiota teve o que merecia”.

Outro fator, claro, foi a habilidade de Cantona em campo. Em declarações durante a preparação do filme, o roteirista Paul Laverty disse que ouviu de Cantona a justificativa por gols e passes inacreditáveis. Além de boa dose de auto-confiança (verificada em um gol contra o Sunderland, quando Cantona encobre o goleiro e apenas encara o estádio, como que pedindo aplausos), havia uma frase que guiava o atacante: “Preciso me surpreender para poder surpreender a torcida.”

Voltando ao filme propriamente dito, Eric Bishop logo se vê diante de um dilema, quando tem de dividir os cuidados do neto com a ex-esposa Lily. Sem saber como se comportar, o carteiro continua a pedir ajuda ao “pôster”. Até que, um dia, começa a receber a presença do próprio Eric em sua casa. E o ídolo de antes se converte num conselheiro, que o estimula a consertar sua vida. Ora usando de vários aforismos, como “quem tem medo de jogar um dado nunca vai tirar um seis”, ora exercitando coisas práticas. O que provoca cenas hilárias, como ver os dois homônimos dançando ao som de "Blue Suede Shoes", lembrando dos bailes em que o carteiro conheceu Lily. 

Além disso, Cantona recomenda que ele peça ajuda aos companheiros de trabalho e torcida, usando como exemplo a melhor jogada que crê ter feito em sua carreira. Cantona lembra de um passe dado a Dennis Irwin para dizer “Você deve confiar nos seus amigos de equipe. Sempre.” Eric Bishop obedece. E terá muito mais a agradecer àquele francês que lhe disse, certa vez: “Eu não sou um homem comum. Eu sou Cantona.”


Comentários de Leitores

 

(...)

esquece a pergunta, reli e enxerguei 'o estréia em circuito comercial' no seu texto! abs!

      Postado em 19/11/2009 às 20:53 por Alexandre Kazuo

boa!

...finalmente alguém resenhou algo realmente interessante! parabéns, Felipe! só uma pergunta, já houve lançamento nacional?

      Postado em 19/11/2009 às 20:49 por Alexandre Kazuo

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