Viva La Vida (Longe demais das capitais) |
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Postado em 19/5/2009 às 17:02 por Alexandre Kazuo Aoki
Prólogo:
Vida em technicolor, vida em azul, apenas azul. Um homem caminha solitário. Não faz muito tempo que ele se mudou para Londres. Foi bem recebido mas os serviços a ele atribuídos parecem não ter agradado seu patrão que logo o demitiu. Ele se chama Luís e passa despercebido por uma rua deserta da capital britânica. Seus trajes não chamam muita atenção. Uma calça jeans e por baixo da jaqueta a mesma camisa azul que os seus comandados utilizaram numa certa ocasião. Uma certa ocasião em que o Brasil venceu a Inglaterra rumo ao pentacampeonato mundial. Passando pela calçada próxima às grades do cemitério de Londres este homem não estaria a cantar ‘la la la la la la hey’. Ele entoaria um tradicional vanerão dos pampas...
Viva La Vida (Longe demais das capitais)
“(...) se não houver esperança, o que mais existe? Sem surpresa,
sem deslumbramento? Não é só pensar nas pirâmides ou no Rio Amazonas.
É pensar na Beyoncé também. Ou naquele bolo de
chocolate que a gente comeu ontem. É como aquela cena em
Manhattan, em que Woody Allen faz uma lista das coisas que tornam
a vida espetacular. Eu tenho uma lista muito, muito, muito longa de
coisas assim. Você deve ter também, tenho certeza.”
(Chris Martin)
Você se lembra deste lugar? Apucarana, a quarenta e nove quilometros da ‘pequena Londres’ no norte do Paraná. Já esteve lá alguma vez? Pois é hoje eu resolvi vir ao ‘Bar da Gil’. Dia corrido, não tive tempo de almoçar e pelo visto nem terei. Com minha bolsa estilo carteito mal pendurada no pescoço adentro o recinto e cumprimento a dona Gil. São quase quatro horas da tarde e hoje é quarta feira, dia de rodada da Champions League. De qualquer jeito coloco minha pasta sobre a mesa, próximo ao café que alguém deixou derramar. Um pedaço de papel parece escapar e pela letra posso reconhecer. Redações para corrigir, sou professor, saca? Deveria falar e escrever de maneira menos coloquial mas não estou em horário de trabalho. Deve ser uma produção textual da Thamiris escapando da pasta. Acho que se eu tiver uma filha ela se chamará Thamiris. E se eu tiver mais quatro, elas se chamarão Jéssica, Amanda, Natália e Isadora. Um time de salão feminino. Quando eu era moleque não haviam times de futebol feminino. Já vi Renê Simões falando sobre a forma como algumas moças que se tornaram atlétas da seleção feminina sofriam com discriminações sexistas. Escrevo para um site de futebol e ouso dizer, com a Marta eu casaria...
Dona Gil zapeia o controle remoto da tevê enquanto grita por seu filho, o pequeno Celso. Já tem alguns marmanjos se acotovelando no balcão. Algumas informações sobre o Chelsea. O clássico inglês dos blues contra o Liverpool parece bom e acho que não terei tempo de ver a reprise. Parece que todos estão querendo ver o Barcelona contra o Bayern de Munique. Celular toca de repente. Hino do São Paulo, só pode ser problema, ‘Alline/faculdade’ diz o identificador:
- Suuuushiiiiiiii?
- Hi baby!
- Você vai ter que vir na primeira aula.
- Não tenho escolha, tenho?
- (...silêncio sepulcral...)
- Beijo!
- Tchau.
Imprevistos. Se você não entendeu, ‘Sushi’ é meu apelido. Não vai dar tempo de tomar banho, nem de colocar o All Star limpo, nem de por a camisa nova do Alexandre Pato. Agora percebo que respingou café na letra branca do patrocinador da minha camisa do Bayern de Munique. Por pouco não sujou o livro de arquitetura que deixei ali no canto da mesa. Numa folhinha de sticker amarela escrevo ‘reler a página 42, discutir com Caroline’ e colo na na capa. Bauhaus para mim é mais banda de rock gótico do que estilo arquitetônico. Na tevê as equipes já estão alinhadas em campo, lá no estádio ecoa o hino oficial da UEFA Champions League. De repente sinto alguém se aproximando. Acho que é o pequeno Celso.
- Olá prof!
- E aí, Ceslo? Acho que a tua mãe tava te procurando.
- Ahh...eu estava na rua. – diz Celso tirando alguma coisa do bolso da bermuda – consegui seu card do David Beckham e no envelope cor de rosa como você falou!
- Nossa! – digo espantado – eu falei brincando, só queria o card.
- E para que você quer outro? Você já tem o Beckham!
- É para mandar de presente para uma amiga que mora longe.
- Ahhh...você gosta dela, né?
- Ham...gosto...num conta pra ninguém, viu?
- Não vou falar, mas você tem que me dar um card do Cristiano Ronaldo!
- Eu sabia...
Ceslo desvia da cadeira próxima ao balcão e vai para os fundos do bar. Dona Gil disse que ele fará onze anos na semana que vem. No balcão dois sujeitos parecem malucos ao falarem sobre a escalação do Barcelona. Acho que o argentino se chama Armando, ele tem uma banca de jornais aqui por perto. Armando enaltece as qualidades de Lionel Messi enquanto o Silva diz que ele não é tão bom assim.
- Vou torcer para o Bayern, para o Zé Roberto do Brasil e para o Lúcio capitão do Brasil! – diz Silva exaltado.
- Ahh si, e esta camisola de Barcelona? – pergunta Armando apontado para a camisa que Silva veste.
- Hahahha...é do Barcelona mas olha atrás olha! Esta é do Ronaldinho que carregou o Barça nas costas daquela vez que eles ganharam a Champions League!
- Tu és um maricon isso sin! – berra Armando num tom debochado.
Ninguém espera ver seu time perder de goleada. No entanto houve algo próximo a um espetáculo catártico em Camp Nou nesta tarde. Lionel Messi faz dois gols, Henry e Samuel Eto’o marcam um cada. O Barcelona impõe 4x0 sobre o Bayern de Munique só no primeiro tempo. Ninguém espera ver seu time sofrer uma virada desastrosa. Entre um lance e outro de menos importância observo o Chelsea virar o jogo para 3x1 após sair perdendo para o Liverpool. O que será que o técnico Jürgen Klinsmann espera do seu Bayern de Munique para a rodada de volta? O que será que esperam os torcedores do Liverpool sempre acostumados a viradas históricas?
Seu dia foi bom, seu dia foi ruim? Seu time perdeu ou seu time ganhou? Tem coisas que fazem a vida valer a pena apesar de tudo. Um show do Barcelona termina na tevê enquanto vejo o Silva escrevendo ‘Messi’ num papel e pregando-o com durex nas próprias costas. Você procura pelas soluções dos seus problemas? Você procura por um pouco de esperança? Um gol de falta do Riquelme, o passe que Inzaghi recebe após sair da linha de impedimento no último segundo. Ou o silêncio do Santiago Bernabeu segundos antes de testemunhar um gol de falta de Del Piero no dia de seu próprio aniversário. Ronaldo ‘fenômeno’ retornando de novo, sorrindo após encobrir o goleiro. Pode ser? Ou então, um gol aos quarenta e sete munitos do segundo tempo que classifica o seu time para a final da Champions League! Você perde um pouco do seu tempo lendo isso aqui? Obrigado. É o dia a dia de um cidadão normal, como você. Eu preciso terminar esse texto logo, colocá-lo no e-mail e encaminhá-lo ao Bertozzi. E viva la vida, vida em technicolor, vida em azul grená...
Epílogo:
Uma manhã acinzentada numa grande metrópole japonesa. Terra do sol nascente que viu o Brasil ser pentacampeão. A crise chegou ao oriente e não há nada para fazer hoje assim como nada havia para fazer ontem. Ela faz subir o zíper ajeitando a blusa que deixava aparecer a alça preta do sutiã sobre seu ombro direito. Sua tatoo não chegava a transcender os limites da blusa mas posso imagnar um inusitado Sagrado Coração de Jesus estampado em sua pele por baixo da manga destra. Enquanto o frango cozinha na panela, ela liga o notebook para ler alguns e-mails. ‘U2 – The Ground Beneath Her Feet’ diz o playlist do winamp. Ele mudava o ‘her’ para Rê... um súbito fluxo de consciência lhe trás uma velha recordação ao mesmo tempo em que ela ajeita os longos cabelos negros que ele dizia se assemelhar aos da J.Lo. Ela ficava toda cheia de si mas nunca confessou isso. A melhor maneira de se elogiar as mulheres sem soar piegas é compará-las a grandes estrelas de cinema. Ali na cômoda num cantinho do pequeno espaço que seria a sala do apartamento está um pequeno confete em forma de borboleta dos vários que caíram durante o show. ‘Coldplay – Lovers in Japan-Regin of Love’ diz o playlist do winamp…
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